A banalização da violência e o olhar americano

A banalização da violência e o olhar americano


Quadro de Deirde Hydre, pintora britânica que pinta a Costa Rica em todas as suas cores.


Durante minha estadia nos Estados Unidos, mais precisamente na ensolarada e chuvosa Gainesville, na Flórida, tive a oportunidade de fazer um curso de verão na Costa Rica com colegas até então desconhecidos. Em sua maioria americanos, todos iam com a expectativa do país verde e de forte apelo turístico, apesar da consciência de que o curso seria intenso e puxado todos estavam ansiosos por conhecer a Costa Rica.
Mas a ansiedade não durou muito, ao chegarmos na cidade, encaramos engarrafamentos quilométricos, transito caótico, uma chuva que insistia em deixar tudo mofado e fedido, e quando chovia o transito piorava e chovia todo dia! As calçadas quebradas, os homens aterrorizantemente encaravam e mexiam com as mulheres. E fomos lembrados incontáveis vezes que deveríamos andar juntos, por causa da violência, justificada como “típica de países em desenvolvimento”, eu estava com medo no início também...
Com o passar dos dias, acompanhei a descoberta do novo país pelos olhos dos colegas americanos, horrorizados com as ruas sem estrutura, com o trânsito que não funciona, com a violência ameaçadora e com os homens que não respeitavam ninguém. Eu levei um choque cultural nos dois primeiros dias, pois estava passando uma curta temporada nos Estados Unidos estudando e já havia me acostumado com a segurança e infraestrutura da pequena cidade que morava...a Costa Rica era tão....tão...tão Brasil! Mais precisamente, era a minha cidade, era Belém, com suas ruas estreitas e calçadas destruídas, seu calor e sua chuva constante, seus homens atrevidos e os perigos rondando as esquinas escuras. Eu me senti terrível com a percepção!
Cada dia após isso eu me sentia cada vez mais em casa, mais a vontade menos assustada e também mais exposta, é como se todos os defeitos da minha terra estivessem ali ressaltados com marca texto para os outros e cada vez que alguém fazia algum comentário sobre a cidade eu pulava e tentava explicar o problema como se tivessem questionado o buraco na minha camisa. Foi um mês, em que cada vez que um colega batia uma foto de algo “inusitado” (como um cara levando um micro-ondas na garupa da moto) eu me sentia particularmente envergonhada, como se estivessem batendo uma foto minha, no meu habitat natural.
E digo sem medo de degradar a minha cidade, que a Costa Rica era ainda mais segura que a minha cidade, um mês andando por suas ruas em diversos horários e não passei pela terrível sensação de uma moto ou bicicleta parando ao meu lado para me assaltar....ou sequer alguém suspeito andando atrás de mim durante a noite nas ruas soturnas. Talvez eu tenha dado sorte, talvez estivesse em um bairro bom, ou talvez só talvez ...minha cidade seja ainda mais violenta que a Costa Rica e sua fama aos olhos estrangeiros.
Quase um mês depois, ainda estava me sentindo ofendida pela maneira que falaram da cidade, das ruas, do trânsito, da violência....mas então eu compreendi...eu compreendi que EU ESTOU ERRADA, porque aceito essas coisas como coisas comuns do dia-a-dia. Preste bem atenção não estou aqui defendendo os americanos ou a suposta soberania deles, tenho muitas coisas ruins a considerar sobre esse período que estou aqui, mas essas coisas serão ditas em um outro momento.
Mas é inegável que se você vem de um lugar onde a realidade é a segurança, as ruas planejadas, casas sem muros, trânsito que funciona, e ônibus com horário regular onde se dá “Bom dia” ao entrar e “Obrigado” ao descer, é claro que você se chocaria com qualquer mudança nesse padrão de realidade. Por isso eles tratavam aquilo como algo fora da realidade, da mesma maneira que me senti quando cheguei aos EUA, só que meu choque foi positivo e o deles com a Costa Rica negativo.
Hoje, eu me sinto errada e me questiono até que ponto estamos tão acostumados com a violência e a corrupção do nosso país que não fazemos mais nada, sequer notamos quão absurdo é sair de casa e deixar o celular para trás com medo de ser assaltado, ou mudar seu trajeto diversas vezes para evitar supostas ruas perigosas, ou ainda, se jogar de um ônibus em movimento durante o desespero de vivenciar mais um assalto.

Ter me percebido apática, irônica e crítica com os americanos que não entendiam a minha realidade me fez perceber que ainda tenho que mudar e corrigir meu comportamento, me importar mais e não aceitar a violência da minha cidade, do meu país como algo banal e sem solução...enquanto não nos incomodarmos de fato com nossos problemas nunca faremos nada para tentar corrigi-los. Ah como eu estava errada!

P.S- Quem tiver interesse a Costa Rica é exuberante, vale a pena a viagem!!!!

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